Nem Todo Homem: Os Donos do Mundo
O artigo do músico e antropólogo Ricardo Teperman está no ar na íntegra
Esta semana, demos o pontapé na seção Nem Todo Homem aqui na newsletter Nem Toda Mulher. É uma edição extra mensal para troca de cartas entre homens que admiramos (não porque sejam irrepreensíveis, mas porque são inteligentes, gentis e interessados em desaprender, aprender e construir juntos).
O primeiro a publicar aqui é o músico, antropólogo e editor Ricardo Teperman, publisher da Zahar. Na próxima newsletter, convidaremos outro para “conversar” com o texto dele e assim sucessivamente. Leia aqui o editorial da seção Nem Todo Homem.
Antes, um recado: Nosso desejo é construir uma comunidade de debate em que haja espaço para errar, perguntar, discordar e aprender. Queremos ouvir, questionar, e pensar juntos — não projetar nossas frustrações em quem topa se expor neste espaço. Combinado?
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Boa leitura!
Os donos do mundo
por Ricardo Teperman
Ao receber o convite para escrever este texto, não hesitei nem por um segundo. Como uma amiga gosta de dizer: “queria ao menos por um dia ter a autoconfiança do homem branco hétero”. Taí uma coisa que não nos falta: caímos no caldeirão da autoconfiança quando pequenos. Sinais de todos os lados nos são enviados - uma espécie de lavagem cerebral que repete “você é o cara”. E, nós, sem hesitar por um segundo, acreditamos no conto e aumentamos um ponto.
Alguém poderia dizer: mas nem todo homem é autoconfiante. Sim, claro - nem todo homem.
Para quem não pensa “eu sou o cara, o mundo é meu”, sempre resta uma alternativa confortável: “ele é o cara, o mundo é dele”. Quando não reconhecemos em nós os atributos que admiramos e desejamos, buscamos e acreditamos encontrá-los em algum outro sujeito, de resto parecido conosco. Sempre um homem. Ele pode se tornar nosso amigo, herói, concorrente, desafeto, inimigo. E dividimos o mundo entre nós. Assim, mesmo se perdemos, ganhamos.
Tenho lembrado da novela “O dono do mundo”, de 1991, cuja abertura reproduzia a célebre cena de “O grande ditador”, de Charles Chaplin. Na versão brasileira, a delicada dança de Carlitos/Hitler com seu globo terrestre é coreografada ao som de “Querida”, de Tom Jobim. Já no primeiro capítulo o personagem principal, um cirurgião plástico interpretado por Antonio Fagundes, faz uma aposta com um amigo: vai transar com a noiva virgem de seu funcionário dileto, antes que o casamento se consuma.
Ao revisitar essa trama hoje, o que mais me espanta é a triangulação entre o médico, o amigo e o funcionário. Um se gaba para o outro de que vai arruinar a vida do terceiro. No meio do caminho, tinha uma mulher. Adaptando uma ideia de Cida Bento, trata-se do pacto narcísico da masculinidade. Nem todo homem, mas sempre um homem.
O que acontece se nem todo homem quiser seguir fazendo parte deste pacto?
As feministas já alertaram que não estão dispostas a resolver (mais) essa por nós. Mas não é de hoje que elas formulam, de muitas maneiras e com notável resiliência, hipóteses de superação da dominação masculina.
Em O direito ao sexo, a filósofa Amia Srnivasan propõe uma bela definição de feminismo. Na tradução de Maria Cecilia Brandi: “o feminismo não é uma filosofia nem uma teoria, não é nem mesmo um ponto de vista. É um movimento político sem precedentes de transformação do mundo. Apresenta a pergunta: o que aconteceria se acabasse a subordinação política, social, sexual, econômica, psicológica e física das mulheres? E responde: não sabemos; vamos tentar descobrir”.
Em algumas situações, sua posição é inequívoca: ela advoga pelos direitos de profissionais do sexo, critica o caráter destrutivo das políticas carcerárias e aponta as patologias da sexualidade contemporânea. No texto que abre o livro, Srnivasan reflete sobre o universo dos incels, homens revoltados por acreditarem estar sendo privados de uma condição básica para sua hombridade: fazer sexo com as mulheres que desejam. Ao terem este suposto “direito” negado, assumem um espírito justiceiro que os leva a insultar, violar ou exterminar. Lendo O direito ao sexo e conversando com amigas feministas, entendi que a autoconfiança e o feminicídio se apoiam numa mesmíssima premissa – a de que homens se sentem os donos do mundo.
Ao debater outros problemas, Srnivasan permanece na ambivalência, explorando as várias dimensões de um mesmo fenômeno. Ela pergunta, por exemplo: “como habitar o lugar ambivalente onde reconhecemos que ninguém é obrigado a desejar ninguém, que ninguém tem direito de ser desejado, mas também que ser ou não alguém desejado é uma questão política, em geral respondida por mais padrões gerais de dominação e exclusão”. A dimensão política do desejo é algo que nos desafia como homens e, de diferentes maneiras, o assunto aparece em muitas de nossas conversas — ainda que, nos mais das vezes, em versão tosca. Gostaria de conversar mais e melhor sobre isso.
Tiro uma importante lição da leitura de O direito ao sexo: há situações em que a reflexão traz clareza que permite — ou exige — posicionamentos firmes. Há outras em que, ao menos por ora, não há resposta simples. Como homens, temos falhado duplamente. Primeiro, porque nos falta coragem e dignidade para desafiar o pacto narcísico que nos beneficia. Segundo, porque nos falta humildade para aceitar que não há nada que possamos fazer para acalmar o desconforto quando nosso lugar como privilegiados e opressores é visibilizado.
Nem todo homem, mas sempre um homem. Minha primeira reação a essa frase foi tentar entender o que significava a primeira parte: sou ou não sou como todo homem? Custou-me algumas versões deste texto, e muitas conversas, até perceber que o problema que interessa estava na segunda parte: sempre um homem.
O filósofo jamaicano Charles Mills propõe que todos os brancos são beneficiários do que ele chama de “contrato racial”, embora alguns brancos não sejam dele signatários. Sueli Carneiro, principal responsável pela circulação da obra de Mills no Brasil, tem repetido com frequência esse chamado a distinguir beneficiários e signatários.
O fato de que estejamos enredados numa trama misógina que nos favorece só aumenta a responsabilidade por nossos atos e a obrigação ética de rever nossa maneira de passar por este mundo. Mas algo permanece irredutível, incômodo, como um ruído difuso: sempre um homem.
Aceitaremos perder protagonismo? Como lidaremos com a exposição do nosso machismo? Teremos a dignidade de cuidar sem esperar reconhecimento? Estaremos prontos para enfrentar amigos ou colegas homens quando for preciso? E como reagiremos ao fato de que nada que fizermos será suficiente? Não sei, vamos tentar descobrir.
Nem todo homem, mas sempre um homem. Durmamos com esse barulho.
Edição passada
Na edição passada, o tema foi Nem toda mulher quer ser mãe
Clique aqui para ler os seguintes textos:
Nem toda mulher quer ser mãe
Por Vera Iaconelli
Ser ou não ser mãe: a pergunta impossível.
Por Carol Pires
Imaginei que seria mãe de bebê reborn antes de ser modinha
Por Bianca Santana
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Proposta super necessária e desenvolvida com uma clareza, sensibilidade e honestidade maravilhosa! Obrigada pela coluna, pela escolha do participante, e claro pelo texto e sua reflexão ❤️
Que legal seguir nesta leitura com as reflexões de um homem implicado no tema. Autêntico. Esse parece ser o caminho para alguma virada dessa condição "sempre um homem".