Nem toda mulher quer ser mãe
A primeira edição na nossa newsletter está no ar.
O QUE É SER MULHER?
Silvia Federici disse que a mulher moderna nasce na fogueira: quando o capitalismo precisou domesticar os corpos femininos como força reprodutiva.
Simone de Beauvoir deixou marcado na história da filosofia que não se nasce mulher, torna-se. Não é biologia, é construção.
Em 1851, a ex-escravizada e ativista Sojourner Truth perguntou: “E eu não sou uma mulher?”
bell hooks usou a pergunta de Truth como título de um livro que desmonta o feminismo branco que trata “a mulher” como uma categoria universal.
No Brasil, Lélia Gonzalez apontou: é na pele da mulher negra que o Brasil imprime as injustiças – social, racial, sexual.
Nos Estados Unidos, Angela Davis disse o mesmo: ser mulher precisa ser pensado cruzando gênero, raça e classe.
Para Judith Butler, gênero é performance. Não é o que você é — é o que você faz.
Para Paul B. Preciado, definir gênero é uma tecnologia política, uma ferramenta de controle sobre os corpos.
Na psicanálise, Lacan disse: “a femme n’est pas toute”. A experiência feminina transborda, não cabe na linguagem. A mulher é não-toda.
Nem Toda Mulher é uma newsletter que nós, Carol Pires, Vera Iaconelli e convidadas vamos debater — sem jamais definir — o que é ser mulher. Queremos falar sobre ter filhos e sobre não querer tê-los. Sobre nossas mães e sobre nossos pais. Queremos falar sobre os homens que tentam nos delimitar. E sobre o "nem todo homem" que queremos no debate com a gente.
Te convidamos a apoiar nosso trabalho e fazer parte desta comunidade.
Esta será uma newsletter paga – porque nosso trabalho vale. Mas queremos democratizar o debate e por isso oferecemos assinaturas sociais e afirmativas gratuitas para grupos minorizados, periféricos ou pessoas em vulnerabilidade econômica, por exemplo. Se for o seu caso, escreva para nemtodamulher@gmail.com se apresentando.
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Esperamos que vocês gostem da leitura e estamos ansiosas para receber comentários e abrir o debate.
Carol e Vera.
Leia nesta edição:
Nem toda mulher quer ser mãe
Por Vera Iaconelli
Ser ou não ser mãe: a pergunta impossível.
Por Carol Pires
Imaginei que seria mãe de bebê reborn antes de ser modinha
Por Bianca Santana
Nem toda mulher quer ser mãe
Por Vera Iaconelli
A mulher que não quer ter filhos aperta muitos calos, pois toda decisão pessoal é política, como escreveu Carol Hanisch em 1969. Afetamos o restante da sociedade com nossas escolhas, damos exemplo e geramos consequências. A greve de úteros — por desejo ou desagravo — impacta a economia mundial e recebe críticas de discursos conservadores que defendem a reprodução de cidadãos pelo bem da pátria. Que se prefira a reprodução de cidadãos brancos e ricos não é um detalhe menor.
Alguém se dá ao trabalho de questionar um homem que não queira ser pai? Ainda que ele não deseje sê-lo, sempre pode ser surpreendido pela notícia de um filho cuja existência desconhecia. Em função de sua longevidade reprodutiva — há pais octogenários indo buscar seus filhinhos na escola —, eles permanecem eternos genitores potenciais.


